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COMO SE ESTRUTURA A ECONOMIA LIBIDINAL DE UMA PESSOA CELIBATÁRIA VOLUNTÁRIA?

Foto do escritor: Frei Basílio de Resende ofmFrei Basílio de Resende ofm

Atualizado: 13 de mai. de 2024

“O QUE ESTÁ ACONTECENDO COMIGO ??? !!!”


O perfil de dois religiosos, uma jovem mulher e um jovem homem.


Ela, uma jovem religiosa, com 22 anos, de votos temporários, estudante universitária, professora de nível médio, num colégio particular, da Congregação. Uma jovem bonita e de boa sociabilidade.


Ele, um jovem religioso, com 33 anos, presbítero, doutor em teologia e excelente professor universitário. Um belo e maduro homem, tipo atlético.


Ela, no limite do stress, numa visível síndrome de medo e pânico...

Ele, no final de seu curso de doutoramento, em fase de elaboração de sua tese final, sofreu um surto, necessitando ser internado numa clínica psiquiátrica.


Ambos, com conflitos não resolvidos de uma afetividade e sexualidade em processo de maturação e integração.


O ser humano é constituído de um corpo, uma alma e um espírito; cada sujeito humano individual é um coração e uma mente, é uma subjetividade única...


O corpo humano, um organismo vivo normal, é sexuado: anatomicamente é um organismo reprodutor de um macho ou de uma fêmea; mas o ser humano é um ser de relação, consigo mesmo e sua história, com outras pessoas existentes e suas histórias, com as coisas do mundo visível material temporal histórico, e com o mundo invisível imaterial intemporal eterno.


O organismo humano é sensorial, sensual, erógeno. Ele busca e encontra prazer e satisfação em suas funções orgânicas, em seus movimentos e nas suas expressões de si mesmo artísticas e socioculturais.


Qualquer atividade humana (do corpo, da alma, do espírito) é prazerosa, se for feita com plena consciência de si, autocontrole, autodomínio, equilíbrio e reverência; e com amor, responsabilidade, cuidado, respeito, ternura, compaixão, solidariedade e reciprocidade.... e de acordo com o estado de vida que adotou ou assumiu:  solteiro, casado, celibatário.


Como é a economia libidinal de um homem celibatário ou de uma mulher celibatária?

 

ELA, UMA SESSÃO.

Ela marcou uma sessão terapêutica, de 50 minutos.

 

SUA NARRATIVA:

“O que está acontecendo comigo? Eu estou com medo, vivo em pânico... Isso já está me atrapalhando, em meus estudos, em minhas aulas, em minha saúde e paz... O que está acontecendo comigo?


“Eu acordo de noite, preciso ir ao banheiro, e não vou... por medo!

“Medo... O que está acontecendo comigo?


“Os rapazes do colégio, meus alunos, brincam comigo, que eu sou muito bonita; que eu não posso ser freira... dizem que vão lá no convento me roubar... Mas eles são muito simpáticos, são muito gentis... É brincadeira deles!


“Mas, o que está acontecendo comigo?

“Estou com medo... Isso não é normal...


“Quando eu tinha 18 anos, eu tinha cabelos longos, estava no nível médio. Um professor disse que meus cabelos eram bonitos. Fiquei com raiva e cortei meus cabelos; (de fato, ela usava cabelos curtos).


“Mas, o que está acontecendo comigo: Eu não estou normal. Estou com medo!


“Eu estou me sentindo como quando eu tinha 14 anos. Os meus seios estavam crescendo (e fez o gesto com as duas mãos mostrando os seios). Mas isto tem tanto tempo; não tem nada a ver com o que estou sentindo, agora... Lá na minha terra, tinha um homem, tarado sexual, que estava preso... Ele foi solto.

“Eu estava numa árvore de frutas, no lote vizinho de minha casa, e ele passou na rua, me viu e disse: “Eih, menina bonita, eu vou te levar para mim...”


“Eu fiquei em pânico, fui internada num hospital, com síndrome de medo e pânico...


“Eu estou me sentindo igual àquela situação dos meus 14 anos.


“Mas isso não tem nada a ver comigo, agora.


“O que está acontecendo comigo? Essas coisas não tem nada a ver com o que sinto, agora.”


Ela encerrou o seu relato. E ficava olhando pra mim, esperando uma resposta, uma explicação; esperava uma espécie de diagnóstico.


Ela queria compreender suas emoções, seus sentimentos, seu medos...

 


UMA TENTATIVA DE COMPREENSÃO

De fato, ela já havia dado a explicação do que estava acontecendo com ela. Ela precisava compreender que todos esses episódios (dos 14 anos, dos 18 anos, e as brincadeiras gentis dos seus alunos) tinham uma conexão entre eles; todos tinham um denominador comum entre eles: a sua própria sexualidade.


Deixei passar uns instantes de silêncio.


Eu lhe respondi:

“Não sei o que está acontecendo com você... Vamos fazer um experimento. Você me fala o que vai sentir...”


Aproximei a minha cadeira da poltrona onde ela estava assentada. Pedi a ela que me desse suas mãos. Segurei-as, com ambas as mãos, olhei para ela, bem nos olhes, e lhe disse:


“Eih, menina bonita! Vou te levar para mim!”


Sua reação foi dramática... Vidrou os olhos, ficou pálida, empurrou minhas mãos e disse:


“O que você fez comigo? O que você fez comigo??? Agora, eu estou com medo de você! Eu estou com medo de você!


“O que você fez comigo?”


Eu afastei minha cadeira. (Neste momento eu notei que corri um risco calculado. Ela poderia ter surtado, saído correndo da sala e gritando que eu tentei abusar dela).


Mas ela se conteve e apenas perguntava e queria entender o que estava acontecendo com ela, no momento...


Eu disse-lhe, calmamente, claramente:


“Eu falei com você o que os rapazes estão dizendo para você, atualmente, mas eles são gentis, é brincadeira deles... Eu lhe disse o que o professor falou sobre seus cabelos, aos seus 18 anos... E o que você ouviu daquele homem quando você tinha 14 anos, quando os seus seios estavam crescendo... Você está percebendo que tudo tem a ver...


“Afinal, essas 4 situações – as brincadeiras dos seus alunos simpáticos, a observação do professor sobre seus cabelos bonitos, a fala daquele homem na sua adolescência, e o que eu lhe disse há pouco – têm um fator comum...,


“Afinal, trata-se da sua vida, da sua condição humana, a sua pessoa e o seu ser feminino; trata-se do seu ser mulher - objeto de desejo e sujeito desejante... trata-se de sua sexualidade...


“Vejamos: os rapazes, seus amigos e gentis, brincam: ‘você é muito bonita... você não pode ser freira... eu vou lá no convento te buscar.’ Isso é brincadeira, mas mexe com seus sentimentos, com seus afetos, com suas imaginações e fantasias – conscientes e  inconscientes. Mexe com seus impulsos e desejos sexuais.


“O mesmo efeito causou em você, com seus 18 anos, uma reação de rejeitar e negar seu lado feminino, sua atratibilidade social, seus cabelos bonitos. Você rejeita ser bonita e atraente, porque mexe com seus desejos e sua atração....com seus sentimentos e desejos de natureza sexual.


“E você, com seus 14 anos, sentiu um choque, um trauma, a ponto de ser internada num hospital, ao ser vista como moça bonita e desejada por um homem, sexualmente imaturo e doente.


“Você não estava mentalmente preparada e madura para saber-se como mulher, como objeto de desejos e fantasias de um homem, nem sentir-se como sujeito desejante em suas fantasias e desejos, conscientes ou inconscientes...

 

MOTIVAÇÃO VOCACIONAL

“Agora, eu lhe pergunto: e, então, hoje, no seu momento histórico e existencial, como uma moça de 22 anos, universitária, professora, uma jovem mulher e bonita, e cristã...


“O QUE VOCÊ QUER FAZER DE SUA VIDA?


“Qual a motivação profunda, consciente e inconsciente, que está levando você a querer ser UMA IRMÃ? É um medo de ser mulher? É buscar um gênero de vida que evita e nega sua sexualidade? O que te leva a decidir ser freira, é o medo de amar e de ser amada, como mulher?


“Ou é por um amor e uma paixão por Jesus, que ama o Pai e ama o mundo que o Pai criou, e ama cada pessoa – homem ou mulher - que o Pai criou e quer salvar ?


“Você quer consagrar a Cristo e ao Reino de Deus e sua justiça, a mulher que você é, - a amiga, a namorada, a noiva, a esposa e mãe que você poderia ser, - e não mais ter medo de nada, nem de ninguém, porque encontrou um verdadeiro amigo e esposo?


Eu é que lhe pergunto: “O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM VOCÊ...?”


(Fim da sessão.)

 

UMA OUTRA TOMADA DE CONSCIÊNCIA

E DE ATITUDE PERANTE A VIDA

Um mês depois, eu estava num dia de reflexão com o Governo de sua congregação. Na mesma cidade dela, mas em outra casa.


Fui almoçar na casa dela. Eu queria saber os efeitos nela de nossa conversa.


Após o almoço fui ter uma entrevista pessoal com ela.


Ela iniciou a conversa com a pergunta insistente: “O que você fez comigo?”


Fiz silêncio. Aguardava mais sinais...


Ela continuou: “Eu mudei. Eu ainda tenho receios. Mas é diferente...”;


Falou um pouco mais...


Eu precisava continuar meu trabalho na outra casa. Despedimo-nos.

 

UMA VIDA E UMA PESSOA NO OCEANO HUMANO: QUE SÓ DEUS SABE.

Nunca mais a vi. Nunca mais me encontrei com ela.


Nunca me esqueci dela.


Soube, anos mais tarde, que ela estava no Remar, casa de retiros dos Irmãos Maristas, em Ribeirão Das Neves, fazendo o retiro em preparação para seus votos perpétuos. Encontrou-se com um frei, meu irmão de congregação e amigo. Disse a ele que me conhecia.


Sei que ela está neste mundo de Deus, testemunhando uma vida segundo o Espírito de Jesus.


Isto me basta!


“ Uma pequena lágrima basta para salvar uma pessoa,

uma curta oração,

um suspiro,

um balbucio de amor

e eis um destino perdido

que ressuscita na manhã da Ressurreição”

Charles Moeller

(in Mundo e Missão, abril 2024 p.10)

 

X  Y  X  Y  X  Y  X  Y

 

ELE, UMA SEMANA DE SESSÕES DIÁRIAS.

 

Ele, com 33 anos de idade, 15 anos de vida consagrada e 9 de ministério presbiteral

 

HISTÓRICO: ESTUDOS E DOUTORAMENTO EM ROMA

 

RETORNO AO BRASIL

No aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, falou com Ministro Provincial que o foi recepcionar:

“Eu não posso ficar em casa de formandos. Eu preciso, de imediato, falar com Frei Basílio.”


Depois, ainda na semana em que chegou, liga para o Provincial e disse-lhe que não precisava encontrar-se, de imediato, com o Frei Basílio. Pode encontrar-se com ele mais tarde.

 

O SURTO.

Foi convidado a fazer uma palestra para jovens religiosos, estudantes, de votos temporários que teriam 3 dias de um encontro de estudos sobre um tema escolhido, prática de esportes, recreações, e a celebração litúrgica de uma Festa do Padroeiro.


Ele surtou.


Foi internado na Clínica Psiquiátrica, atendido por um psiquiatra.

 

QUAL DIAGNÓSTICO? QUE TRATAMENTO?

Encontrei-me com seu médico; ele estava sedado. Conversamos.


Eu: “Dr. F, sou fr.b, sou frade, colega do seu cliente. Soube que, em seus delírios durante o surto, ele dizia que iria deixar o seu Instituto religioso; que deixaria a vida religiosa e o presbiterato... Quer ele deixe a sua congregação, quer continue, ele é um intelectual, ele vai ser um professor.”.


Dr. F: – “Eu sei, por isto não estou usando medicamentos que afetem os centros da memória e da associação de ideias. É de efeito mais demorado.”


Eu: “Na minha opinião, o seu cliente, não tem lesão cerebral. Ele tem um conflito de natureza emocional, cultural e moral. Eu acho que ele deve fazer uma terapia...”


Dr. F.: “Terapia não adianta nada; ele estava fazendo terapia com o Pe. X.”


Eu:  “O Pe. X.  me desculpe a ausência, eu o respeito como sacerdote, mas como terapeuta, ele é um charlatão. Ele não tem formação de psicólogo e de terapeuta. Ele é amigo íntimo da família do seu cliente, conhece-o desde criança”


Dr. F.: “Bom, reconheço que não há a neutralidade necessária. Mas, terapia não resolve!”


Eu: “No momento, em que ele está em surto, não. Mas acho que deve fazer terapia o quanto antes. O sr, é psicoterapeuta?”


Dr. F: “Não.”


Eu: “O sr, tem em sua equipe, algum psicoterapeuta?”


Dr. F : “Tenho.” 


Eu: “O sr, pode indicar?”


Dr. F: “Não, eu prefiro que a Congregação indique.”

 

AUTODIAGNÓSTICO

Um mês após, eu tive o primeiro encontro com o religioso, desde que ele havia voltado de Roma. Ele estava numa fraternidade religiosa, em tratamento ambulatorial com o Dr. F.


Tive a primeira conversa com ele:


Eu: “...,  eu soube que você, lá em Roma, queria interromper seus estudos e vir aqui ao Brasil para ter um acompanhamento comigo. Você, como sacerdote, quando alguém o procura para um aconselhamento pessoal espiritual, você ouve a pessoa, escuta as narrativas dela, procura entender e compreender o que se passa com ela, em seus conflitos. Procura fazer uma espécie de diagnóstico, e ver se o caso é espiritual e pastoral, ou se é psicológico para indicar um profissional, e faz um certo prognóstico. Você sabe os fenômenos que aconteceram com você lá em Roma. Como você diagnostica você mesmo? O que você acha que aconteceu com você lá e o que está acontecendo com você, aqui, agora?” .


Ele ficou pensativo, uns instantes, depois disse:


“Como dizer? Eu diria que eu vivo um conflito cultural, um conflito de identidade. Eu acho que eu estou fora de lugar... “


Eu: “Sim ...”


 – “Eu acho que eu não devia ser padre... é uma coisa difícil de entender... “

 

AUTO PERCEPÇÃO E COMPREENSÃO

Eu: “Ok, estou ouvindo... Houve lá em Roma algum fator que precipitou em você a crise que você experimentou, como as nuvens carregadas há um fator que precipita a chuva. Houve algo em sua vivência íntima que precipitou o surto que você sofreu lá?”


Ele: “Sim, houve... Chegou lá na casa onde eu estudava e morava, um novo colega. Ele era muito alegre, jogávamos futebol, conversávamos, eu fiquei muito amigo dele... Eu tive um sonho erótico com ele. Isto causou uma confusão mental em mim... entrei numa crise de identidade e de minha condição de padre...Achei que era um homossexual”


Eu: “Bem, um sonho é um sonho. O fenômeno do sonho, está fora do âmbito da moral; é uma manifestação do nosso inconsciente, não há nenhuma responsabilidade ética, moral. Eu posso sonhar que matei um irmão meu, que tive relações sexuais com quem quer que seja, nada disto tem a ver com a minha vida de vigília, com minha conduta moral ou espiritual. Este é um assunto que eu trato e reflito com meus jovens formandos lá em Petrópolis. Uma amizade entre homens pode ter a veemência da afeição humana. A emoção dos fortes sentimentos de companheirismo, coleguismo, amizade entre companheiros é um valor ético e moral humano. Veja na Bíblia no livro de Samuel a amizade entre Jônatas e Davi: “Quando Jônatas viu Davi a alma de um se uniu à alma do outro. .. Jônatas amava Davi mais do a si mesmo...” (Sm 18,1-4...) Quando Saul e Jônatas morreram o cântico de Davi, dizia “Jônatas, meu amigo, meu irmão, a tua amizade me era mais preciosa do que o amor das mulheres...(2Sm 1,26)”... Ninguém pode chamar Davi de homossexual; um heterossexual incontrolável. Veja ele com a mulher de Urias.”  Aconselhei-o a ler 1Samuel capítulos 18; 20; 23,14-18; 2Samuel 1. Leia, medite, aplique a você e suas afeições, amizades e companheirismos fraternos... Depois vamos conversar”.

 

UMA ORIENTAÇÃO E UM CONCEITO SOBRE TRATAMENTOS.

Em Roma, ele entrou em surto. Foi internado numa clínica. Recebeu tratamento psiquiátrico, para amenizar a sua condição de saúde, e conseguir terminar a elaboração e defesa da tese de doutoramento. E quando voltar ao Brasil continuar e completar o seu tratamento.


Mas, seus orientadores eclesiásticos lhe disseram para não fazer psicanálise, argumentando eles, em suas opiniões -  “porque a psicanálise freudiana, é pansexualista, desestrutura a personalidade”.


Ele me contou que numas férias, na Holanda, ele teve fortes impulsos de suicídio, de lançar-se diante de um trem, em alta velocidade.


Então, ele voltou ao Brasil, com um preconceito defensivo contra a abordagem psicanalítica.

 

MUDANÇA DE METODOLOGIA DE TRATAMENTO

Em janeiro do ano seguinte, eu passo pela casa onde ele estava. Bato no seu quarto para pedir-lhe um cartão para oferecer a uma adolescente, cujos 15 anos, ia celebrar uma Eucaristia, e o encontro considerando um postal de uma máscara africana.


Ele estava desanimado.


Me diz: “Fr. Basílio, comigo não tem jeito. Eu estou desanimado de me recuperar...” E continuou a falar. Mas eu não o podia ouvir naquela hora.


Disse-lhe:

“Desculpe. Eu tenho uma celebração agora. Eu queria só lhe pedir se você tem um cartão para dar a uma menina de 15 anos. Nós conversamos depois.”


Eu estava de passagem, após a Missa de 15 anos, eu iria viajar para São João Del Rei, para 15 dias de férias com meu pai.


Decido, então, ficar uma semana com ele, - ouvindo-o, tentando intuir e compreender o que ele estava experimentando, e dizendo a ele o que eu intuía e compreendia do que estava acontecendo com ele, - por uma hora diária de conversa, durante uma semana. Mas, que ele continuasse o tratamento com o seu psiquiatra.


Mudo meu programa de 15 dias de férias com meu pai, em Sjdr.


Durante uma semana, tivemos uma hora, por dia, de entrevista.


Falamos, falamos... Eu o ouvia, respondia, dava informações, deixava ele se expressar como quisesse, suas inquietações, seus questionamentos, seus conflitos, suas ambiguidades não resolvidas, seu desânimo consigo mesmo e com seu destino humano e vocacional. Suas incongruências afetivo-sexual e espiritual...


Está convicto de que é um homossexual e de que uma pessoa homossexual não pode ser sacerdote. Ele me disse que em seu período de formação inicial, em suas aulas de Teologia Moral, o professor disse, categoricamente: “Um homossexual não pode ser sacerdote católico. Como descobrir se a pessoa é homossexual? – Olhe os sonhos dele!!!”


E, anos depois, em Roma, fazendo seus estudos de pós-graduação e doutoramento em Teologia, ele tem a “confirmação” (por um sonho erótico), de que foi um grave equívoco ele ter sido ordenado sacerdote. Ele não poderia, de modo algum, ser um padre católico. Ele teve um sonho homoerótico.

 

UMA PESSOA INTELIGENTE, HONESTA E ÉTICA

Depois de 7 dias, em que eu o ouvi, como que em terapia psicanalítica, digo-lhe: “Você teve, nessas nossas conversas, uma prova do que é a psicoterapia analítica, contra a qual você veio de Roma com uma opinião contrária, com uma contraindicação moral. Afinal, psicanálise é a terapia pela fala, pelo discurso, pelo diálogo livre, sem prejulgamentos; é uma compreensão dos conflitos inconscientes através da livre associação dos signos, sinais, símbolos, atos falhos, lembranças encobridoras obsessivas, sonhos... Faça uma avaliação de nossas conversas. Quais efeitos você sentiu; o que acha?”


Ele me responde: “Você me disse uma coisa que eu caí do cavalo... Você me disse que quem indicou o tratamento com este psiquiatra - Dr. F. - foi o Pe. X., e eu pensava que tinha sido a Congregação Religiosa que me tirou do tratamento com ele (Pe. X.), e me

trouxe para este psiquiatra, para me matar... “


(De fato, em nossas conversas, eu o havia informado de que quem indicou o psiquiatra Dr. F. para tratá-lo agora, foi o Pe. X.; que eu teria preferido o Dr Halley Alves Bessa ou o psicanalista Padre Dalton Barros de Almeida, redentorista, por conhecerem os simbolismos bíblicos e baseados na antropologia cristã. Vejam como ele estava ‘interpretando’ o tratamento que recebia... Ele interpretava o tratamento intravenoso que recebia como se fosse a inoculação do veneno que o mataria, e, submisso, aceitava a autoeliminação.)


Eu lhe respondi que era o de que eu havia sido informado. E que iria pedir confirmação. Pergunto ao Superior Provincial dele que me disse que foi o Pe. X., mas ele disse para não dizer que tinha sido ele que indicou tal psiquiatra. Disse-lhe, que havia informado o religioso. Que o Superior comunicasse ao Pe. X. que seu ‘amigo’ de família está informado sobre quem havia indicado o seu psiquiatra.


Eu lhe reafirmei que as nossas conversas, eram uma prova do que é o tratamento psicanalítico, contra o qual ele veio com uma opinião contrária, com um pré-conceito, de Roma, e a orientação para não se tratar. A psicanálise trabalha com a fala e os silêncios, com a linguagem verbal e corporal, com o comportamento, com o que acontece na entrevista. Não, diretamente ou prioritariamente, com remédios. Ele me perguntou se eu havia contactado o psiquiatra, pois o Dr. F. aumentou a medicação.


De fato, as entrevistas com o psiquiatra, tinham como objetivo do profissional, avaliar o nível de ansiedade do seu cliente para aumentar ou diminuir a dosagem.


Ele pensava que eu, um representante da Congregação, havia dito ao seu médico para aumentar a dose. Em suas fantasias onipotentes, imaginava que eu havia ido a BH, para agudizar o procedimento de eliminação dele.


Ele era honesto e falava as coisas como percebia e interpretava.

 

MUDANÇA DE TRATAMENTO

O seu superior confiava mais nas opiniões e no tratamento psiquiátrico indicado pelo Pe. X. Estava ansioso, inseguro e receava uma mudança de tratamento. Eu lhe disse, assertivamente, que só com esse tratamento químico o religioso não se recuperaria como um sujeito crítico racional responsável; com o tratamento psicoterápico isso poderia acontecer.


Procurei o psicanalista didata, o Padre Mallomar e contei-lhe o histórico do religioso.


Ele me disse, que já deveria ter começado com a psicoterapia.


Mas acrescentou: “Você não acha que há homens demais na vida deste religioso?

Vamos colocar uma mulher na história dele? Há uma senhora da minha equipe que poderia muito bem fazer este trabalho; é a Maria Célia Bessa.”


Quando ele falou o nome dela, eu fiquei admirado, porque foi a minha professora de Psicologia do Desenvolvimento na UFMG. Ele liga para ela e lhe pergunta: “Você quer enfrentar um padre esquizofrênico? (Eu lhe cochicho ‘pergunta se ela se lembra do Sylvério’; aí ouço ele dizer ao telefone:) Não, não é ele não. (Eu: ‘Diga a ela que eu sou também, mas ainda estou aguentando as pontas’ kkkk)”.


Perguntei-lhe se ele queria mudar de orientação no tratamento, do psiquiátrico para o psicoterápico.


Ele disse que sim. Então, falei que eu iria com ele, ao seu psiquiatra, e conversaria na presença dele com o profissional. Nada falaria com o seu médico, fora da presença dele; só se o médico dissesse que não discutiria pormenores de métodos e técnicas de tratamento na presença do seu cliente. (Lembro, que ele estava ‘convicto’ de que a ‘Congregação, tendo a mim como seu agente’, decidira ‘matá-lo’ através da medicação do psiquiatra.)


Chegamos lá, cumprimentei o Dr. F. Lhe disse que em outubro passado, havíamos conversado sobre o tratamento do seu cliente; que ele era de opinião de que psicoterapia não surtia efeito de cura, mas só a medicação. Eu julgava que deveria acrescentar à medicação, também a psicoterapia.


O Dr. F. disse que não era ainda hora de psicoterapia, mas de medicação.


Eu disse-lhe que o seu cliente queria a psicoterapia.


E que eu havia falado com o Pe. Mallomar, contei o histórico do seu cliente, e ele achava que está na hora de começar a psicoterapia.


O Dr. F. disse: “Mas, logo o Mallomar, um freudiano ortodoxo?”


Eu respondi: “Eu perguntei ao sr. por um psicoterapeuta da sua equipe, e o sr disse que deixaria a indicação para a Congregação. Agora a Congregação está indicando um e o sr não aceita?”


Ele: “Bem, o Mallomar é do primeiro time da psicanálise em BH”.


Eu: “Sim, como o sr, Dr. F., é do primeiro time da psiquiatria em BH. Queremos oferecer o melhor tratamento possível ao nosso confrade”.


Ele: “Mas, o Mallomar não vai aceitar trabalhar comigo.”


Eu: “Eu lhe perguntei se ele aceitaria fazer a psicoterapia com um psiquiatra que não fosse da equipe dele. Ele disse que sim, que trabalha com o psiquiatra que já está tratando o frei; embora preferisse um da sua equipe”.

 

E A VIDA SEGUE, UM EXCELENTE PROFESSOR E SACERDOTE

QUE CONHECE AS AMBIGUIDADES HUMANAS

E assim, o nosso religioso, passou a se tratar com a minha ex-professora, a psicanalista, Dra. Maria Helena Bessa.


E veio a ser um estimado frade, um excelente professor, muito bem avaliado pelos alunos e um cuidadoso sacerdote.


E um bom atleta, sempre, enquanto viveu.

 

A beleza é a grande necessidade do ser humano,

é a raiz da qual brotam o tronco da nossa paz

e os frutos da nossa esperança.

Bento XVI

(in Mundo e Missão, abril 2024 p.9)

 

Frei Basílio de Resende ofm

(Sylvério Bosco de Resende)

Noviciado São Benedito, Montes Claros, MG.

11 de maio 2024

 


 

 
 
 

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9 Comments


rosariopazplena
rosariopazplena
May 12, 2024

Paz plena. Escrevi mais estes 4 comentários hoje porque nesta noite acordei por volta das 3:00 horas, fui ao banheiro e depois senti a presença de espíritos e um deles me perguntou se eu tinha certeza de que não existem as penas eternas. Respondi que sim, mas demorei um pouco para dormir novamente, pois continuei sentindo a presença de espírito que tinham medo de serem condenados pela eternidade. Quando fui levado à Clínica Pinel no dia 12/01/1980, eu libertei muitos espíritos que se julgavam condenados ao "Inferno Eterno" e isso causou muita alegria neles, que também causou, em mim, uma imensa alegria naqueles dias. (12/05/2024).

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rosariopazplena
rosariopazplena
May 12, 2024

Paz plena. Quando o nosso irmão Antonino iniciou a sentir a presença de espíritos ao lado dele, como ele me contou, ele pensou que não era digno de receber o Espírito Santo, então era sim o Demônio. Quando eu comecei a receber revelações da Espiritualidade em janeiro de 1980, eu tinha toda certeza de que era sim do Espírito Santo... Essa foi a grande diferença entre eu e o Antonino. A causa dessa diferença entre eu e ele, tem que ter outra origem, como também é o caso da jovem religiosa. Eu digo que essa causa tem sua origem em vidas passadas. (12/05/2024).

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rosariopazplena
rosariopazplena
May 12, 2024

Paz plena. Perdi o medo do Inferno Eterno no ano de 1961, após a primeira conversa que tive com o novo "Padre Espiritual" do seminário, que foi o frei Patrício, pois passei a ter certeza de que iria para o "Céu". Destruí os medos da Morte e do Demônio em janeiro de 1980. Aquele psiquiatra que você, Basílio. conheceu, falou-me que eu não podia ficar sem ter medos ou cadeias, então eu precisava colocar outras cadeias sobre os meus ombros e por isso ele disse que eu tinha que tomar remédios e fazer análise. (12/05/2024).

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rosariopazplena
rosariopazplena
May 12, 2024

Paz plena. Com relação ao caso da jovem religiosa com síndrome de medo e pânico, pode-se fazer muitos comentários: pois cada pessoa é um SER ÚNICO em toda a criação. No caso específico a religiosa citou três datas, quando ela tinha 14, 18 e 22 anos. Três datas com diferenças de 4 anos. Eu sou envolvido com o número "3" desde o meu nascimento, pois fui o 15º parto de nossa mãe, que na época era "três" terços do Rosário. Quando fui para o seminário em 1957 eu tinha medo de três coisas: do Inferno Eterno, da Morte e do Demônio.

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rosariopazplena
rosariopazplena
May 12, 2024

Paz plena. Frei Basílio, nos quatros comentários anteriores fiz referências ao caso do frei com relação ao padre Mallomar, com quem também estive. Realmente não temos controle sobre nossos sonhos, mas existem sonhos reveladores como pode-se ver na Bíblia e gosto muito dos sonhos relacionados ao José do Egito, quando ele tinha 17 anos (Gn 37,2 - 11) e depois quando ele estava preso (Gn 40) e depois, após interpretar os sonhos do Faraó (Gn 41) conseguiu a posição de vice-rei do Egito.

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