UMA PEDAGOGIA POSITIVA OU UM MORALISMO PESSIMISTA?
- Frei Basílio de Resende ofm
- 26 de abr. de 2024
- 5 min de leitura
UM PEDAGOGIA POSITIVA OU UM MORALISMO PESSIMISTA?
- NOVICIADO SÃO BENETDITO, 09 de junho de 2021 –
Ouvi, ontem, num vídeo pelo WhatsApp, da Canção Nova, de um Padre, famoso e talentoso orador, um sermão, moralista e condenatório a respeito de um ato particular de jovens adolescentes. Condenava-os ao inferno que, disse, já está cheio deles.
Este pregador moralista, juiz severo, condenaria ao inferno o malfeitor condenado por um juiz civil à morte de cruz por seus crimes, a quem Jesus, na mesma situação, garante: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.” (Lc 23,43)
O padre, “pregador” se deliciava em esmiuçar o ato descrito, com precisão.
Deu-me a impressão de que o discurso, tão veemente, se dirigia, não contra o comportamento licencioso dos jovens, mas contra os impulsos do próprio pregador; ele se horrorizava com a perspectiva do inferno, para coibir e reprimir seus próprios desejos e impulsos eróticos, conscientes ou inconscientes; (lembremo-nos de que ele, como presbítero católico do rito latino, fez juramento público de “celibato e castidade perfeita”, i.é., de abstinência, continência e renúncia aos prazeres erótico-genitais normais e naturais em qualquer pessoa humana, que, nas narrativas bíblicas o Criador deu de presente como bênção, aos esposos e esposas no Matrimônio; “Crescei e multiplicai-vos” (Gn 1, 26s) e “ Não é bom que o homem seja só, vou dar-lhe uma companheira semelhante a ele” (Gn 2,18)).
Se, de fato, esse eloquente pregador amasse os jovens adolescentes, desorientados e “perdidos” – em sua opinião - e os quisesse orientar, ele lhes iria anunciar o desígnio benevolente, amoroso e misericordioso do Criador deles e do próprio pregador.
Assim, o pregador seria um pedagogo, um educador de consciências jovens para os valores da antropologia bíblica que inspiram novas atitudes e condutas amorosas, mais virtuosas e mais dignas de seres humanos, filhos e filhas de Deus. Mostraria o plano amoroso do Pai que quer que seu Filho Jesus tenha uma multidão de irmãos e irmãs, vivendo o amor verdadeiro e puro de corpo, de alma e de espírito, no Espírito Santo.
Aí, sim, haveria um procedimento de educação dos sentidos corporais, educação da sensualidade; haveria uma tentativa de educação dos afetos e da vida sentimental; veríamos o empenho de uma educação para os valores e para uma saudável e equilibrada hierarquia de valores.
O LEGALISMO E RIGORISMO DA LEI OU A LIBERDADE DO ESPÍRITO?
Por acaso, exatamente hoje, dia 09 de junho de 2021, quarta feira da 10ª Semana hdo Tempo Comum, ano ímpar, na leitura da liturgia (2Cor 3,4-11), nos é proposto duas atitudes fundamentais na educação e formação moral e religiosa do povo de Deus: vida sob o jugo da Lei ou a vida com Deus e o próximo segundo o Espírito.
São Paulo faz a apresentação da antiga aliança em que a Lei, não faz outra coisa, que denunciar o pecado e anunciar o castigo e a condenação do pecador sem dar a força para ser fiel à aliança; assim parecem se comportar esses moralismos pessimistas e condenatórios ao inferno, que vemos se multiplicar nas redes sociais, atualmente.
Os ministros do ministério de uma Nova Aliança, por Cristo, na força do Espírito, cheios da confiança que vem de Deus, deveriam anunciam uma novidade, uma boa nova, como disse São Paulo. “Pois, se o ministério da condenação foi glorioso, muito mais glorioso há de ser o ministério ao serviço da justificação” (2Cor 3,9)..
Os ministros da nova aliança deveriam ser servidores do Espírito que toca e converte os corações dos ouvintes para serem novas pessoas participantes e colaboradoras de um Reino de Justiça, Amor e Esperança; onde, “para quem é puro, tudo é puro” (Tt 1,15).
Um quer incutir o medo e o terror: a Lei, o castigo, o inferno.
Outro prega a confiança, a conversão, o amor e a alegria do verdadeiro amor: a Graça! Uma antropologia bíblica, do homem e da mulher, para viverem um amor na justiça, santidade, fidelidade agradecidos ao Criador, ao Redentor, ao Santificador das pessoas todas: os jovens, os adultos, os idosos, as crianças, homens e mulheres.
A SABEDORIA PRÉ-CRISTÃ GREGA
No pensamento do pregador, nem mesmo se encontra, nada de uma compreensão da complexidade do ser humano nascida da inteligência intuitiva, observadora, reflexiva e racional da sabedoria e pedagogia pagã helênica, que elaborou os conceitos para a linguagem e a teologia cristã (Veja a encíclica “Deus Caritas Est” do Papa Bento XVI).
Na antropologia grega, há quatro palavras e conceitos que descrevem e dão uma certa compreensão do ser humano, em sua totalidade: Bios, Eros, Filia, Ágape.
Há o nível Bios, a sua dimensão biológica e corporal, no qual se manifestam os impulsos, desejos e necessidades biológicas, reprodutivas, que dão a satisfação e o prazer sensorial. Há o nível do Eros, a sua dimensão psíquica e social, imaginária e romântica, o mundo dos sentimentos e das emoções que respondem e correspondem à satisfação e ao prazer e contentamento no nível sentimental e romântico. O nível Filia, sua dimensão racional, ética e estética, a área da lealdade e fidelidade da alma racional, que satisfazem as alegrias de uma verdadeira e profunda afeição e amizade humana, com os valores da verdade, da justiça, vida social ética, e a estética. O nível nobre do Ágape, a sua dimensão de bondade e hospitalidade para com o estrangeiro, é o universo da generosidade e da gratuidade, do espírito humano aberto aos valores da beleza, da bondade, da verdade, dos valores universais humanos.
Esses pregadores poderiam usar, ao menos, o equilíbrio e a sabedoria humana, helenista e pagã, para orientar os jovens adolescentes em sua busca de amizades, companheirismos, encontros, convivência, namoros no autêntico crescimento humano e cristão em seus relacionamentos entre si e com o outro amado.
CONCLUSÃO
Os seres humanos, para serem plenos, devem desenvolver simultaneamente e bem integrados todos os níveis de sua pessoa: o corpo, o lado biológico; a alma, o lado psíquico-social-racional-ético; o espírito, o seu lado místico-religioso. Repito que gosto e aprecio muito a antropologia bíblica: nós somos corpo, alma, espirito, coração e mente. “Que o próprio Deus da paz vos santifique totalmente, e que tudo aquilo que sois – espírito, alma, corpo – seja conservado sem mancha alguma para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5,23).
Os jovens precisam ser sensibilizados e motivados a crescerem e realizarem de modo harmonioso essas suas 4 dimensões para que venham a ser pessoas santas e generosas segundo o modelo apresentado por Jesus no Evangelho. Ele mesmo, o homem Jesus, se fez o modelo ideal de uma pessoa humana plena, capaz de “amar e dar suas vidas” pelas pessoas amadas.
Como sentimos falta de uma autêntica antropologia bíblica, de uma teologia do corpo, uma teologia da sexualidade humana e da castidade, da moral cristã e evangélica sobre o amor, a amizade, o namoro, o noivado e o matrimônio cristão, e sobre o celibato. Sentimos falta de uma verdadeira teologia, espiritualidade e mística!
Frei Basílio de Resende ofm,
Noviciado São Benedito, Montes Claros, MG,
Escreveu esse comentário do dia 09 de junho de 2021,
porque tenho visto nas redes sociais semelhantes pregadores moralizadores,
e encontrado muitos jovens católicos em conflitos de consciência e escrupulosos
em consequência desses pregadores com ranços ‘jansenistas e maniqueístas’.
O "pecado original" foi sim um erro dos primeiros teólogos cristãos, que basearam seus estudos nas epístolas do apóstolo Paulo. E quase todos os teólogos posteriores foram sim influenciados pelos ensinamentos teológicos sofistas do apóstolo Paulo e dos santos padres dos primeiros séculos. (Rosário - 26/04/2024).
Paz plena. Para compreender bem a Verdade temos que entender que muitos ensinamentos dos teólogos nos primeiros séculos tiveram seus comportamentos sexuais não perfeitos e jogaram a culpa no "pecado original", pois todos os seres humanos nasciam sob o poder do pecado ou no demônio. Essa foram de ensinar complicou muito todo o estudo da Teologia Cristã. (O maior exemplo desse ensino sofista foi sim o Santo Agostinho, que converteu para o catolicismo já com 34 anos de vida e passou a defender o "pecado original").
Paz plena. É preciso ter muito cuidado em citar a Teologia, pois a Teologia é o estudo sobre Deus, então não pode existir a Teologia do corpo e nem a Teologia da sexualidade humana.
Todos precisam entender que a Teologia é o estudo sobre Deus e para compreender bem a Teologia os teólogos deveriam primeiro estudar muito a Espiritologia, que o estudos sobre os espíritos, que foram criados simples e ignorantes num certo momento da história cósmica.
Cada espírito tem sim a sua única e específica caminhada evolutiva cósmica.
Paz plena. O frei Basílio comenta sobre um pregador que fez medo sobre a ida para o Inferno.
Quando fui para o seminário em 1957 e com 11 anos de vida, eu tinha medo do Inferno Eterno. Em 1961 perdi o medo do Inferno, mas continuava pensando que o Inferno Eterno existia.
Em janeiro de 1980 entendi que o Inferno Eterno não existia, pois a sua existência foi fruto da ignorância de alguns pregadores. Se o Inferno Eterno existisse, então Deus não seria plenamente perfeito. Rosário (26/04/2024).